O impacto do COVID-19 nas atividades do setor rodoviário

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Bruna Alves / João Fornari / Julia Santana Vicente

Em fevereiro de 2020, o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso do novo coronavírus no Brasil e, no mês de março, foram adotadas medidas de isolamento social com o objetivo de combater a disseminação em diversos estados brasileiros. 

Apesar do novo vírus, o setor rodoviário não pode parar completamente, já que é caracterizado como serviço essencial e de extrema importância para o desenvolvimento econômico do país. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT – 2019), o setor concentra cerca de 61% da movimentação de mercadorias e 95% de passageiros no Brasil. 

Tendo em vista esse cenário, a Kartado desenvolveu uma pesquisa para analisar como a situação do COVID-19 está impactando nas atividades do setor rodoviário, como as empresas estão solucionando os desafios e o que enxergam para o futuro do setor. Entrevistamos 31 profissionais de 31 empresas, entre empreiteiras e concessionárias, durante os dias 15 de abril a 18 de maio de 2020

De acordo com as respostas, conseguimos perceber que os impactos do COVID-19 nas empresas do setor rodoviário podem ser englobados em 2 principais pontos:  novos hábitos de trabalho e  queda de receita e faturamento. A partir disso, apresentamos os principais problemas identificados, sugerindo possíveis soluções.

  • NOVOS HÁBITOS DE TRABALHO

Home Office

Como em todos os setores da economia brasileira, o setor rodoviário também foi fortemente impactado por mudanças nos hábitos e nas atividades dos trabalhadores. De acordo com a pesquisa, percebemos que 80,6% das empresas entrevistadas tiveram que adotar o home office como realidade de trabalho nas equipes de escritório e isso gerou certas dificuldades e alguns benefícios para todos os envolvidos. 

Dentre os benefícios, as empresas e os colaboradores perceberam que podem reduzir as despesas com espaço físico, pois entenderam que a produtividade em casa pode ser igual (ou até maior) do que no escritório. Além disso, o trabalho em casa reduz o tempo de deslocamento até a empresa e isso entrega mais horas disponíveis para o trabalhador e menor gasto da corporação com vale transporte, por exemplo. De acordo com a  EMBARQ Brasil (2015), até 60% dos deslocamentos dos brasileiros é por motivo de trabalho e os trabalhadores perdem, em média, 15 dias por ano nesse caminho. Ainda, podemos citar as questões de bem estar, maior proximidade com a família e flexibilidade de horários.

Contudo, o home office também gera alguns desafios para todas as partes. Nas entrevistas foram citados: 

  • Internet e equipamentos de qualidade em casa;
  • Logística de licenças de VPN (Virtual Private Network);
  • Gestão remota de equipes e projetos;
  • Falta do convívio e interação humana;

A questão da internet e disponibilidade de equipamentos, bem como liberação e compra de licenças de VPN,  está bastante relacionada ao planejamento orçamentário para ferramentas de trabalho e não demandam uma solução muito complexa. Entretanto, é importante analisar caso a caso como isso pode ser feito da maneira mais otimizada o possível para não se aplicar gastos desnecessários. 

Em relação à gestão remota de equipes e projetos, existem metodologias (como o Modelo Scrum) e soluções digitais que possibilitam não só o gerenciamento de atividades a distância, mas também uma maior produtividade das equipes como um todo. A Kartado, por exemplo, desenvolveu um sistema de gestão para conservação de grandes infraestruturas, que permite acesso remoto e acompanhamento de atividades de qualquer lugar com rede e reduz ao menos 30% de custos operacionais.

A questão da falta de convívio e interação humana é um pouco mais delicada, mas existem aplicativos de vídeo-chamada e dinâmicas em grupo que podem ajudar nessas situações – para saber mais você pode ler este artigo. E é importante ressaltar que, em alguns casos, a empresa precisa fornecer apoio psicológico, contando com ajuda de profissionais e até mesmo de ferramentas remotas..

Ademais, para um maior aprofundamento das questões supracitadas, deixamos como sugestão um excelente artigo do Pedro Fornari, CEO da Kartado, sobre soluções para os problemas trazidos pelo famoso home office: Como o isolamento social impacta o trabalho nas concessões?

Medidas de segurança e conscientização

A maioria das empresas optou por afastar colaboradores que estão no grupo de risco para não comprometer a vida de nenhum desses. Observamos que muitos tiveram suas férias antecipadas, suas jornadas de trabalho reduzidas e, em alguns casos, realizaram também um “rodízio” de horários para diminuir o número de pessoas no mesmo local ao mesmo tempo. 

As operações em campo não possibilitam atividades remotas, mas também precisaram de adequações para a manutenção das atividades. Todas as empresas entrevistadas apontaram que, para a continuidade das obras e da qualidade das rodovias, tiveram de adotar as medidas de segurança sugeridas pela OMS e demais autoridades da saúde. Dentre as medidas estão o distanciamento social, o uso de máscaras, a medição de temperatura, a higienização dos materiais e a maior periodicidade de limpeza dos ambientes de trabalho, alojamentos e refeitórios. 

Existem ainda, soluções tecnológicas que facilitam na adoção dessas medidas. O uso de aplicativos para a comunicação entre campo e escritório, por exemplo, permite que não exista contato físico entre essas duas equipes. Mas percebemos, na verdade, que o que aparenta ser o mais simples está se tornando um dos principais desafios das empresas do setor: a conscientização dos colaboradores! 

De todas as empresas entrevistadas, apenas 4% relatou que não está tendo grandes dificuldades em manter as medidas de segurança entre as equipes – isto porque, segundo as entrevistas, os próprios colaboradores estão fiscalizando uns aos outros e, se por acaso alguém decumprir as regras estabelecidas, o mesmo é retirado do ambiente. Em contrapartida, 96% das empresas entrevistadas apontaram ter grandes dificuldades em conscientizar as pessoas durante suas atividades de trabalho. Ficamos pensando, o que fazer então? 

Fazer conversas diariamente, mostrar que o colaborador deve se cuidar para cuidar de sua família (puxando um pouco para o lado emocional), colocar avisos em todos os ambientes, advertir ou até demitir quem está colocando seus colegas em risco, podem ser soluções. Para os parceiros da Kartado, inclusive, estamos tentando ajudar enviando mensagens semanais aos aplicativos com lembranças da importância destes cuidados.

 Muitas das vezes, infelizmente, apenas há conscientização quando algo impactante acontece a alguém próximo de nós. Isso nos fez lembrar daquelas propagandas de combate ao uso do celular no volante, com crianças, em que elas, filhos e filhas dos motoristas, lembram aos pais da importância desta medida de proteção. Quem sabe fazer um vídeo com os filhos dos colaboradores reforçando a necessidade da conscientização seja uma boa ideia?

  • QUEDA DE RECEITA E FATURAMENTO

Concessionárias

Durante as entrevistas, percebemos que 100% dos entrevistados estavam com queda na receita e/ou tinham medo de uma redução do faturamento. Quando se trata de concessionárias (26% dos entrevistados), percebemos que todos tiveram baixa na arrecadação dos pedágios e, ao mesmo tempo, não tiveram alívio das agências reguladoras no quesito fiscalização e cobrança. Ainda, de acordo com a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), as rodovias pedagiadas tiveram uma redução no movimento de 44%, o que resultou em uma queda de 30% na arrecadação das concessionárias. Essa queda não estava prevista nos contratos de concessão e foi reconhecida, no dia 13 de abril, pela Advocacia-Geral da União (AGU), permitindo as concessionárias federais pleitearem reequilíbrio dos contratos e reajuste dos pedágios. 

Como sugestão de solução para esse problema, deixamos a criação de ações de marketing que incentivem a população a utilizarem rodovias pedagiadas – trazendo, inclusive, as questões de segurança e preparo que as concessões têm para esta situação do Coronavírus. Outro ponto importante a citar, é que, segundo a ABComm, o número de comércios que entraram no e-commerce por mês durante o período da quarentena subiu em 400% – ou seja, são 400% a mais de produtos que precisarão ser transportados para os consumidores. As concessionárias podem aproveitar este momento. 

Empreiteiras

Enquanto isso, no lado das empreiteiras (74% dos entrevistados), entendemos que não houve queda na receita e nem quebra de contratos (salvo algumas exceções nas duas primeiras semanas do isolamento social) – isso porque o Governo Federal, por meio do DNIT, assegurou que não vão haver cortes e nem redução dos contratos. Logo no começo da crise, durante um debate online promovido pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o Diretor Geral do DNIT, General Antonio Leite dos Santos Filho, apontou que os recursos da Autarquia estão garantidos durante esta pandemia e que não existe previsão de cortes. Contudo, 100% das empreiteiras que participaram da pesquisa se demonstraram com medo do que pode acontecer caso essa situação continue e o dinheiro do Governo acabe – principalmente com receio em relação à extinção de novos contratos, que pode prejudicar o crescimento do setor.

Para as empreiteiras, sabemos que é mais difícil de aumentar a renda sem novos contratos. Mas existem algumas medidas que podem ajudar a incrementar a receita dessas empresas:

  • Buscar empenho em suas obras, com o apoio de dados e informações de suas obras;
  • Aproveitar as equipes paradas para contratos menores com prefeituras e/ou empresas privadas;
  • Para as que possuem usinas de asfalto, é possível construir um projeto comercial de venda do material para terceiros (o que já é bastante praticado no mercado);

Hora de arrumar a casa

Analisando esse cenário, ficamos pensando em soluções simples e práticas para ajudar as empresas neste momento. Uma estratégia que está sendo aplicado em grandes empresas de diversos setores, é a criação de um comitê de crise para agir de maneira rápida e assertiva, atuando de forma multidisciplinar até as coisas se estabilizarem. 

Contudo, para todos os players do setor rodoviário, propomos que é hora de aproveitar o tempo para “organizar a casa”. Assim como muitas pessoas estão percebendo gastos desnecessários e aprendendo a otimizar os recursos que possuem para suas vidas, as empresas também devem usar deste período para olhar para dentro de cada processo e enxergar como podem otimizar seus recursos. Um artigo publicado pela McKinsey, em 2016, mostra que o setor da construção é o segundo setor menos digitalizado (ficando a frente apenas do setor de caça e agricultura). E isso não se deve somente pela falta de empresas de tecnologia no segmento, mas principalmente – segundo artigo da Buildin – porque:

  • A gestão das obras (como o planejamento, por exemplo) continua sendo feito com pouca coordenação entre o escritório e o campo, requerendo muita tarefa em papel;
  • Os contratos não incluem incentivos para compartilhamento de risco e inovação;
  • A gestão do desempenho (performance management) é inadequada;
  • As práticas usadas ao longo da cadeia de suprimento são pouco sofisticadas.

Isso nos leva a refletir sobre o quanto ainda podemos melhorar os processos envolvidos em obras e concessões rodoviárias, otimizando os recursos, diminuindo custos e aumentando a qualidade dos serviços prestados. Muito se fala sobre o “Novo Normal”, que ninguém sabe ao certo como será, por isso finalizamos este artigo com algumas perguntas para provocar a reflexão sobre as mudanças que vivenciaremos após a essa pandemia: 

  • Devemos adotar uma frequência maior de expediente remoto, com ferramentas mais automatizadas? 
  • O setor da infraestrutura vai quebrar barreiras para finalmente entrar no mundo digital?
  • Como as empresas vão se organizar para permitir que essas mudanças aconteçam?
  • O que precisamos fazer para garantir que o futuro seja promissor?

Artigo escrito por Bruna Alves, João Fornari e Julia Santana Vicente

REFERÊNCIAS

  • https://www.abtc.org.br/index.php/noticias/noticias-do-setor/item/6232-queda-na-arrecadacao-leva-governo-a-liberar-aumento-do-pedagio
  • http://www.agenciainfra.com/blog/com-reducao-de-ate-70-no-fluxo-grandes-empresas-de-carga-querem-suspender-pedagio-em-rodovias/
  • http://transportes.gov.br/ultimas-noticias.html
  • https://cbic.org.br/covid-19-dnit-preve-manutencao-de-recursos-para-a-infraestrutura/
  • https://www.gov.br/dnit/pt-br
  • https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/infraestrutura/obras-atrasadas-e-gargalos-do-saneamento-basico-aumentam-o-custo-de-produzir/
  • https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/infraestrutura/governo-empenha-r-11-bilhao-em-emendas-parlamentares-impositivas-na-area-de-transporte/
  • https://blogdaengenharia.com/infraestrutura-rodoviaria-tendencia-de-crescimento-para-os-proximos-anos/
  • https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/infraestrutura/menos-investimentos-para-transportes-em-2020/
  • http://www.portaldaindustria.com.br/cni/canais/infraestrutura/

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